domingo, 4 de abril de 2010

simples assim



É que às vezes me ponho na rede

e sentindo o embalo, me sento calada

olhando pro nada mas vendo de tudo.

Respirando esse cheiro bom de terra molhada,

aspirando essa vida que brota

que insiste e que resiste...

Mergulhando a alma na imensidão do céu

que aos poucos se colore

de lavanda, ameixa e dourado,

passeio os olhos pelo pasto e pelo roseiral.

Meus ouvidos, encantados pelos

pássaros que se despedem

e pelos grilos que chegam,

são despertados

pelos sons dos passos que te anunciam.

Meu corpo reconhece

o movimento do teu que se aproxima...

E espero com um sorriso guardado

- na boca entreaberta-

que você chegue

e me deite um beijo calmo e macio.




segunda-feira, 29 de março de 2010

entrega

imagem google


E eis que o tempo

me enlaça pela cintura


há tanto que me chama pra dançar...


E eu que não desejo fugir,

que não tenho pra onde ir,

encosto em seu ombro

e me deixo envolver

pela voz lânguida

do tempo que me consome.


Nada é mais real

que os seus braços

em torno de mim...



domingo, 7 de fevereiro de 2010

os olhos, a cabeça



Meus olhos ardem

me chamando pro descanso...

mas minha cabeça

dona de si e senhora de tudo

não deixa que minhas mãos parem

não permite que o corpo se renda

“Ainda há tempo”

Ela faz ecoar dentro de mim...



sexta-feira, 13 de novembro de 2009

quentura

Alice Braga em "Ensaio sobre a cegueira"




O calor desmedido queimava minha pele

e o suor escorria lentamente encharcando-me a roupa.


Na rua, operários trabalhavam ruidosamente sem parar

e minha cabeça girava como se fosse explodir

como se quisesse saltar dali pra um lugar bem longe.


As poucos o cansaço tomou conta dos meus músculos

sentia-me derreter

sentia-me sem saída

e recorri ao chuveiro

que despejou sobre mim gotas d’água ferventes.


A noite chegou e eu saí

fui para a rua em busca de alívio

andei sem destino

consumida pelo calor e pelo cansaço.


Foi assim, de repente,

que o céu começou a vazar pingos de sanidade

a água molhou cabelos, meu rosto, meu corpo

parei no meio do nada

e me deliciei com cada beijo molhado

enquanto as pessoas corriam apressadas

abrindo desajeitadamente seus guarda-chuvas

eu não desejava fugir!


ergui minha cabeça

libertei um sorriso

entreguei-me

e fiz amor com o vento...



quinta-feira, 1 de outubro de 2009

batom

imagem google




Estava sempre à espera... Sempre pronto para cobri-la. Ora impaciente, sem cerimônias. Ora leve, deslizando lenta e despudoradamente- observando as curvas e imprimindo sua marca. Aos poucos foi se acabando, cada dia mais um pouco, consumido até o fim...






segunda-feira, 14 de setembro de 2009

televisão

foto überfoto




Imperava imponente. Centro de tudo. Dona da casa. Luz própria. Encantamento. Todos os olhos para si. Guardadora de todos os desejos. Senhora de todos os pensamentos. Era alívio. Alimento. Alicerce. Prazer. Até o dia em que alguém puxou a tomada...





quinta-feira, 10 de setembro de 2009

quero o nada

Auguste Rodin



Agora apenas o desânimo

-talvez não o desânimo-

mas o cansaço.

Uma vontade de me enrolar feito serpente

e afundar a cabeça para dentro.

Mergulhar onde ninguém pode chegar.

Estou sempre me explicando,

e procurando explicações.

Sempre pensando,

Sempre atrasada,

Sempre lendo,

Sempre saindo,

Sempre chegando

Sempre- a carona, a comida, os papéis, a faxina, o documento, a resposta, o dinheiro, o compromisso, a reunião, a roupa de cama, os gatos, o sapato, a blusa, o casaco, a sombrinha, as chaves, o relógio, o celular, o roubo, o carro, as contas,a garagem, o prazo, a lâmpada, a pressa, a bronca, a raiva, o grito, o medo, a tristeza, a angústia, a demora, a dúvida!

Sempre, sempre, sempre...

Mas o que desejo não é o nunca .

Desejo silêncio e o nada

Respirar o nada,

Transpirar o nada,

O nada ,

por enquanto...